Mentes que visitam

domingo, 29 de abril de 2012

EDUCAÇÃO E LIBERDADE


Eliani Gracez, 
Filósofa clínica 

Entre os seres que vivem neste planeta, os humanos nascem sem identidade própria, sua identidade é construída a partir do modelo social vigente. O instinto de preservação e de identidade nos animais está interiorizado, e de si eles retiram seu próprio agir e modo de ser. Mas com a espécie humana não acontece o mesmo. Um exemplo disso são as meninas lobas encontradas em 1920 na Índia. Elas foram criadas pelos lobos e desenvolveram características de lobos e não de humanos. Isso justifica a importância da educação, e dos bons exemplos, porque os humanos não sabem tirar de si sua própria identidade, e por isso necessitam de um modelo para se desenvolver.

O que os jovens veem é corrupção, violência social, injustiça, impunidade, desrespeito às leis, e na televisão assistem a programas que não contribuem em nada com sua formação. Fácil está de perceber a inexistência de um modelo de Ser Humano para jovens e crianças se identificarem. O líder do rebanho não é mais um homem ou uma mulher, mas, sim, o computador.

Em uma época onde a moral e os valores são duvidosos, e o honesto é chamado de “boboca”, o indivíduo perde seu referencial, causando desestrutura pessoal. Ao culpar a família pela desestrutura da educação, é preciso lembrar que este modelo foi, desde longa data, opressor, e, muitas vezes, violento. Homens construíram uma estrutura machista em cima de uma base não sólida, por isso, mais cedo ou mais tarde, a casa teria que desabar. O moralismo do passado já não serve mais. E agora não sabemos o que fazer para estabelecer uma nova ordem. Em meio à desordem, as drogas estão se tornando uma epidemia. Mas o que leva uma pessoa a se tornar um consumidor de drogas? Talvez seja insegurança, imaturidade, irresponsabilidade, ausência de valores, falta de um ideal, desestrutura pessoal e familiar, curiosidade, fuga, modismo, e, sobretudo, problemas na educação. Um jovem bem educado sabe que a escolha certa é dizer não às drogas.

E agora, como restabelecer a ordem em meio ao caos? O fato é que este mundo já não é mais o mesmo, este velho planeta mudou. A mulher mudou, a criança mudou, o homem também mudou. E onde estão nossos idosos? Estão em um processo contrário, estão rejuvenescendo. A tecnologia tomou conta da vida. Computadores, máquinas informatizadas, inúmeros satélites rodeando o planeta. Tornamo-nos ciborgues e nos movemos simultaneamente no real e no virtual.

Com toda essa mudança que perpassa o planeta, nos esquecemos de nossas crianças, nos esquecemos de que elas também mudaram e não querem mais ser tratadas como no passado. A vida cheira a liberdade. Liberdade de ação, de expressão, de credo etc. Somos livres, sim.

E, com isso, deparamos com um grande desafio. O desafio de fazer uso da liberdade para o desenvolvimento, e não para a destruição. O problema tornou-se claro quando vemos jovens que não sabem administrar sua liberdade, usando drogas. O problema reside no conceito de liberdade, pois tem quem pense que liberdade é fazer o que bem entende da vida. Um prisioneiro só é prisioneiro porque não tem liberdade de escolha. Se tivesse, não seria prisioneiro, escolheria ser livre. Isso nos faz pensar que o lugar da liberdade reside no ato de fazer escolhas. Mas poucas são as pessoas educadas para compreender que cada escolha tem uma consequência. Para cada ação, existe uma consequente reação. Quem não pensa nas consequências não é livre, é prisioneiro de suas escolhas. Você já se perguntou o que seu filho fará com a liberdade dele? Sim, seu filho tem liberdade.

Como podemos pensar que jovens educados a partir de um conceito de liberdade equivocado, e com um modelo social corrupto, possam ter boa educação.

sábado, 28 de abril de 2012

USO DA INTERNET PARA ATACAR, AMEAÇAR E HUMILHAR PROFESSORES



Ataques que humilham e ameaçam professores se espalham com as redes sociais. Paula Filizola - CORREIO BRAZILIENSE, 23/04/2012 07:42


O acesso fácil e quase sempre sem o controle dos pais transformou redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut em uma poderosa ferramenta sem filtro para as agressões e ameaças a professores. Cada vez mais conectados, crianças e adolescentes irritados com seus professores usam seus perfis na internet como principal plataforma para xingar e até ameaçar docentes. O cyberbullying, como é conhecido o fenômeno de humilhar e ridicularizar pessoas na grande rede, já é considerado uma forma de agressão que também preocupa educadores. Porém, por ser uma prática relativamente nova, especialistas explicam que ainda não há diagnósticos consistentes para avaliar o problema. Segundo eles, é ainda mais difícil coibir e punir os infratores no mundo virtual.

Professores afirmam que já foram vítimas ou conhecem pessoas que foram alvo de agressões na internet. O docente Hudson Paiva, de 33 anos, vê as redes sociais como um estímulo para as agressões físicas na escola. “O alcance é muito grande. Quando a agressão, a discriminação e a falta de respeito começam na rede, logo geram comentários e podem influenciar atitudes reais”, avalia. As motivações para o cyberbullying são corriqueiras, a exemplo de muitas agressões físicas. Os alunos reclamam de notas baixas, aulas chatas, broncas recebidas em sala de aula.

IGUALDADE E DIFERENÇAS


CLÁUDIA LAITANO - ZERO HORA 28/04/2012

Há um desconforto incontornável com relação à política de cotas raciais nas universidades. Por um lado, as cotas obrigam o Brasil a admitir o apartheid soft que vigora em instituições universitárias (dou um doce para quem se formou na UFRGS com, digamos, 10% de colegas negros na turma). Por outro, as cotas são, em essência, uma confissão de fracasso: não conseguimos resolver nossos problemas de outro jeito, então vai como dá. Meritocracia é para quem pode.

Uma solução bem menos polêmica, mas muito mais complicada, seria corrigir as injustiças quando elas começam: na barriga da mãe (durante o pré-natal), na creche (quando ela é oferecida) ou na alfabetização, já que saúde e educação são, em tese, direitos garantidos pela Constituição. Às vezes, quando prendem um gênio do tráfico que montou uma complexa rede de negócios aos 17 ou 18 anos, fico pensando que a derrota nesses casos é dupla: ganhamos um criminoso, desperdiçamos um moleque empreendedor.

Imagine um país em que os alunos com mais talento para o estudo pudessem ser identificados e valorizados desde cedo, onde quer que estivessem. Na Alemanha, uma sociedade muito mais homogênea do que a nossa, as diferenças entre os alunos são levadas em conta na hora de encaminhá-los para a vida acadêmica. Quando termina o primário, a criança começa a definir a sua orientação profissional conforme o desempenho dos primeiros anos. Há três opções: a Hauptschule, em que os alunos são preparados para o ensino profissionalizante, a Realschule, que habilita a frequentar cursos superiores, e o Gymnasium, que propicia uma base mais avançada para a vida acadêmica. Há ricos e pobres em todos os níveis, em princípio (embora lá, como aqui, ricos tenham muito mais chances de driblar a falta de talento para os estudos do que os pobres).

O que o sistema alemão explicita é que há diferenças na aprendizagem, como em todas as habilidades humanas: há os com talento para ganhar dinheiro, há os que sabem lidar com pessoas, há os que são bons nos esportes, há os que vão revolucionar a física nuclear – e nem todos precisam estudar no mesmo lugar.

Vai bem o país que consegue oferecer as condições para que cada criança possa ser encaminhada a desenvolver (e identificar) seu potencial da melhor forma possível, independentemente de cor ou classe social.

Bom, esse é o sonho. Mas como é que a gente diz para um guri de 18 anos para esperar um pouquinho porque, quem sabe, daqui a 50 anos, se tudo mudar radicalmente agora, seu neto estará indo para a universidade por méritos próprios porque teve um ótimo ensino básico?

A melhor universidade brasileira, a USP, não está nem entre as 150 melhores do mundo. O país com mais universidades nesse ranking, os EUA, pratica ações afirmativas desde os anos 70. O Ensino Superior no Brasil é fraco e injusto há muito tempo (ou é justo a classe média estudar de graça e o pobre pagar?), e a culpa não é das cotas.

COTAS RACIAIS


EDITORIAL ZERO HORA 28/04/2012

A melhor política afirmativa para a educação superior seria, sem dúvida, a qualificação do ensino básico. O ideal seria que todos os estudantes, ricos e pobres, negros e brancos, tivessem oportunidades iguais de se preparar para a universidade e para o mercado de trabalho. Mas a realidade brasileira não é essa. Todos sabemos que as parcelas mais carentes da população, em especial os negros, reconhecidamente segregados pelo racismo explícito do passado e pela discriminação velada do presente, só poderão recuperar parte do prejuízo se receberem compensações da sociedade e do poder público. Neste contexto, não poderia ser outra a decisão do Supremo Tribunal Federal, que, por votação unânime de seus ministros, considerou constitucional o critério de seleção por cotas raciais para o ingresso nas universidades públicas do país. O STF julgou na última quinta-feira que políticas afirmativas não violam o princípio da igualdade nem institucionalizam a discriminação racial, como defendiam os proponentes da ação.

A decisão é mais complexa do que a unanimidade dá a entender. Num país em que apenas 6,1% da população se autodefine como negra, conforme o censo do IBGE, os 45,1% que se autodeclaram pardos correm o risco de serem discriminados pelo próprio sistema de cotas. Além disso, como a inscrição dos cotistas depende muitas vezes da autodeclaração, algumas universidades chegaram até a criar verdadeiros tribunais raciais para coibir fraudes. Outra questão difícil de resolver é a queixa de candidatos brancos e pobres que se sentem prejudicados pela escolha baseada na cor da pele e defendem ações afirmativas condicionadas a critérios socioeconômicos – o que algumas instituições já observam.

Apesar das controvérsias, as políticas compensatórias ainda são necessárias em nosso país, embora não devam ser vistas como solução permanente para as disparidades. São, apenas, atenuantes, que devem funcionar enquanto as disparidades não forem corrigidas pelo desenvolvimento e pelas oportunidades de ascensão social da população. Ações afirmativas de autoestima também precisam ser desenvolvidas, para que as minorias beneficiadas por medidas legais não se sintam constrangidas nem tentadas a incorporar a benesse temporária. Como disse a ministra Cármen Lúcia em seu voto, “para ser igual e livre, é preciso respeitar as diferenças, mas não fazer das diferenças algo que possa ferir nossa dignidade”.

Ao dar o seu aval para que as universidades brasileiras continuem reservando vagas para negros e índios em seus processos de seleção de alunos, o Supremo Tribunal Federal indica aos legisladores brasileiros que a busca da igualdade e o combate a qualquer forma de preconceito e discriminação têm que ser objetivos permanentes – até para que não se precise mais apelar à desigualdade como forma de compensar injustiças.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

ESPORTE E LEITURA AFASTAM JOVENS DA VIOLÊNCIA



Roger Spode Brutti, Delegado da Polícia Civil/RS - JORNAL DO COMÉRCIO, 26/04/2012

Tranquilamente, na praia, lá estava eu, aproveitando a natureza. Após um banho de mar, voltei para o apartamento, troquei de roupa e resolvi ir para a academia de ginástica com minha esposa. O carro estava estacionado na rua. Ao aproximarmo-nos dele, percebi um grande risco na sua lateral, de sinaleira a sinaleira.

Certamente havia sido intencional. Um morador próximo afirmou que uma turma de jovens acabara de passar pelo local, fazendo algazarras. Pensei: o que passaria na mente de uma pessoa dessa estirpe? Isso não seria algo doentio? Não seria essa mesma anomalia que ora os impulsiona a deteriorar o patrimônio alheio, por simples prazer e satisfação, aquela que também os impulsionaria, mais tarde, ao cometimento de crimes maiores, como furtos, roubos e estupros? Qual seria a origem desse mau-caráter?

Após resolver o problema do dano patrimonial por meio de um polimento localizado, passei a refletir sobre o caso. Lembrei, então, de um pensamento que minha falecida mãe sempre repetia: “o mal se corta pela raiz”. Se desejarmos ver nossos filhos polidos de caráter, precisamos cortar o mal pela raiz, ou seja, tornar fértil de condutas saudáveis o campo das suas atividades rotineiras de hoje. O ócio é um dos maiores malefícios à mente de qualquer um, mormente dos jovens que estão em plena formação do seu caráter. A leitura é uma alternativa sempre sadia, assim como a prática de esportes. Similares habitualidades aqui descritas potencializam um desenvolvimento saudável em nossos jovens, tanto de jaez físico como intelectual.